A ministra Cármen Lúcia ainda não decidiu se apoiará Alexandre de Moraes ou André Mendonça nas deliberações do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as medidas que colocaram a corte no centro de uma crise institucional. A posição dela é considerada decisiva para os grupos ligados aos dois ministros.
O tribunal deverá analisar se houve arbitrariedade nos métodos adotados por Mendonça em apurações sobre o Banco Master e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Essas investigações resultaram em um relatório da Polícia Federal (PF) que aponta Moraes como interlocutor do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Também estará em avaliação a regularidade da decisão de Moraes de usar o inquérito das fake news para pedir uma investigação contra Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.
Disputa pelo apoio da ministra
Antes de Moraes reagir contra Mendonça, na quinta-feira (3), Cármen telefonou para o ministro e demonstrou solidariedade diante da exposição pública. O contato ocorreu depois de Mendonça retirar, na terça-feira (1º), o sigilo de um relatório da PF com diálogos entre Vorcaro e Moraes. Em uma das mensagens, o banqueiro perguntou se deveria deixar o país antes de ser preso, em 2025.
Um auxiliar afirmou que Moraes interpretou a ligação como um aceno, embora a ministra não tenha prometido apoiá-lo em votações futuras. Depois, Cármen teria relatado a uma pessoa próxima perplexidade com a atuação dos dois colegas e com o nível de desgaste interno do STF.
A ministra também disse a auxiliares que sabe que seu voto está sendo disputado e que existem apostas informais no meio jurídico sobre a corrente à qual ela se alinharia. Cármen, porém, afirma que decidirá exclusivamente com base nos autos, cuja íntegra ainda não acessou.
Moraes tem o apoio de Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin. Mendonça calcula contar com Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e Edson Fachin. Dias Toffoli não deve participar das votações porque se declarou suspeito de atuar nos casos relacionados ao Master.
Os dois grupos dizem acreditar na adesão de Cármen. Aliados de Mendonça afirmam que a ministra deve considerar o impacto de a corte não enfrentar a suspeita de que um ministro do STF teria integrado a rede de influência de Vorcaro. Já interlocutores de Moraes sustentam que Cármen é contrária a procedimentos arbitrários e citam o voto dela, em 2021, pelo reconhecimento da parcialidade do ex-juiz Sergio Moro em processos envolvendo Luiz Inácio Lula da Silva.
Na divisão atual do tribunal, Cármen acompanha Mendonça na defesa de um código de conduta para o STF, proposta da qual é relatora. Ao mesmo tempo, seguiu Moraes em todos os votos da ação penal sobre a tentativa de golpe de Estado. Interlocutores da ministra dizem que ela não tem alinhamento irrestrito com nenhuma das alas e que seus votos são guiados pela Constituição. Cármen também manifesta preocupação com o peso institucional da crise e com o possível impacto para o Supremo.



