A crise político-institucional tem ocupado o espaço que seria destinado à discussão de propostas para as eleições de 2026, avaliam representantes de entidades da sociedade civil. A menos de um mês do primeiro turno, disputas envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) passaram a dominar o noticiário, as redes sociais e as conversas cotidianas, deixando em segundo plano problemas estruturais do país.
A presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, afirmou que o cenário prejudica a discussão eleitoral. Para a presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, temas escolhidos pela própria sociedade foram substituídos por questões que deveriam ser debatidas junto a propostas de desenvolvimento nacional.
Temas deixados em segundo plano
Os representantes ouvidos consideram graves os fatos revelados a partir dos desdobramentos da Operação Compliance Zero, cuja primeira fase foi deflagrada pela Polícia Federal (PF) em novembro de 2025. Eles defendem a apuração das suspeitas de envolvimento de autoridades com Daniel Vorcaro, dono do antigo Banco Master, mas avaliam que a investigação não deveria impedir o debate sobre os projetos dos candidatos aos cargos executivos e legislativos, cuja votação será em 4 de outubro.
Daniel Cara, coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, classificou as eleições deste ano como as mais relevantes desde a Constituição Federal de 1988. Ele citou a necessidade de discutir desenvolvimento econômico, soberania nacional e uma agenda que reúna defesa, educação, ciência e tecnologia.
Entre as prioridades apontadas pela presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Rita Serrano, estão o fim da escala 6×1, a geração de emprego e renda, a regulamentação da negociação coletiva no setor público, a segurança pública e o aproveitamento de minerais críticos e estratégicos. Ela também mencionou o Projeto de Lei 1.893/2026.
Rita disse que a articulação das centrais sindicais no Congresso avançava até o fim de agosto, mas acabou afetada pela crise institucional. Segundo ela, as próprias entidades tentam compreender o momento e recolocar em pauta uma discussão pré-eleitoral mais ampla.
Clima, minerais e direitos indígenas
As mudanças climáticas também foram apontadas como tema central. Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, citou a seca na Amazônia, as enchentes no Sul do país e os impactos sobre a população, o orçamento público, a reconstrução de cidades e as safras. Ele afirmou que poucos candidatos colocam a crise climática entre suas principais preocupações.
Outro assunto considerado estratégico é a exploração de minerais críticos e terras raras, relacionada ao desenvolvimento econômico, tecnológico e científico e à soberania nacional. O projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos foi aprovado e encaminhado para sanção presidencial.
As organizações indígenas defendem salvaguardas socioambientais e consulta prévia, conforme a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Alcebias Constantino, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), afirmou que o tema está ligado à demarcação e à proteção dos territórios tradicionais.
Para ampliar a representação indígena nos espaços de decisão, o movimento decidiu lançar e apoiar 56 candidatos: 33 para deputado estadual, 19 para deputado federal, dois para senador, um para governador e uma suplência do Senado.
Constantino avaliou que a crise gera instabilidade, mas não interrompe o trabalho de mobilização das comunidades indígenas. Segundo ele, o movimento mantém suas ações e adapta as estratégias quando necessário, diante dos ataques considerados constantes aos territórios e aos direitos indígenas.



