SÃO PAULO — A artista mineira Luana Vitra apresenta “Bandeira Branca”, instalação que ocupa o octógono da Pinacoteca do Estado de São Paulo e aborda o desejo, a violência e os massacres associados às guerras atuais. A obra parte da disputa por metais de terras raras, insumos estratégicos para a indústria moderna e a transição energética.
Sob uma bandeira branca tensionada por um arco e flecha voltado ao mesmo tempo para o céu e para a terra, Vitra relaciona os conflitos armados à exploração do solo. “Todas as guerras são, no fim das contas, contra a terra”, afirma a artista.
A exposição integra o novo programa de parceria entre a Chanel e a Pinacoteca. Para Jochen Volz, diretor-geral da instituição, o trabalho se destaca pela urgência e pela forma poética de tratar o tema.
Ferro, corpo e ancestralidade
A trajetória de Vitra é marcada pelo cruzamento entre poesia, artesanato, dança, moda e escultura. Na infância, foi alfabetizada por meio de poemas decorados com a ajuda da mãe, pedagoga. O pai, marceneiro, aproximou-a da manualidade. Na adolescência, estudou jazz e balé clássico dos 13 anos até a maioridade, experiência que, segundo ela, influenciou sua maneira de organizar o peso nas esculturas.
A artista cursou moda a partir de 2014 e, durante a graduação, dedicou-se intensamente aos estudos sem apresentar trabalhos. A aproximação com a escultura levou-a ao ferro, material presente em sua história familiar. Aos 31 anos, Vitra é natural de Contagem, município do Quadrilátero Ferrífero, e bisneta de minerador.
Em sua produção, ela aproxima a matéria mineral do corpo negro a partir de históricos de violência e cobiça. A relação aparece tanto na extração em massa do minério durante o período colonial quanto na galvanização, processo que impede a oxidação do ferro. “Eu passei a ver a oxidação como uma espécie de greve da matéria”, diz.
Reconhecimento
A artista realizou sua primeira mostra individual em São Paulo com “Três Guerras no Peito”, no Centro Cultural São Paulo, há seis anos. Também participou de exposições coletivas no Instituto Moreira Salles e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Uma de suas obras entrou para o acervo da Pinacoteca em 2022.
No ano seguinte, Vitra recebeu o prêmio Pipa e participou da 35ª Bienal de São Paulo com “Pulmão da Mina”. A instalação tratava do uso de canários por africanos escravizados como alerta para gases tóxicos nas minas.
Depois, a artista passou seis meses em uma residência na África do Sul, onde estudou a miçangaria do povo zulu. De 2024 para cá, participou de bienais em Charjah, nos Emirados Árabes Unidos, e na Tailândia, além de realizar exposições individuais em Roterdã e no Sculpture Center, em Nova York.
“Bandeira Branca” permanece na Pinacoteca até janeiro do ano que vem. Depois, Vitra seguirá para a residência Denniston Hill, no interior do estado americano de Nova York, com uma proposta de descanso e sem a obrigação de entregar uma obra ao final.



