Anis Rassi começou a construir sua trajetória na medicina ainda na infância, em Vianópolis. Ao observar o preparo das galinhas criadas pela família, imaginava que os animais passavam por uma cirurgia. A brincadeira rendeu o apelido de “operador de galinhas”, lembrança que acompanharia a história de um dos nomes ligados à cardiologia goiana.
Filho de Abrão Rassi e Mariana, Anis nasceu em 15 de setembro de 1929. O pai havia deixado o Líbano aos 16 anos, passado por Cuba e retornado ao país de origem antes de se estabelecer no Brasil, em 1924. A família se fixou em Vianópolis, onde Abrão trabalhou como pequeno comerciante.
Anis foi o nono de dez filhos. Quatro irmãos também se tornaram médicos. Em 1948, ele ingressou na Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, formou-se em 1953 e iniciou a carreira em Goiânia nos primeiros dias de janeiro de 1955.
A pesquisa sobre Chagas
Durante a formação no Rio, Rassi lidava com doenças cardíacas que não mostravam a mesma presença encontrada em Goiás. De volta a Goiânia, passou a atender pacientes com manifestações da doença de Chagas e transformou os casos do consultório em perguntas de pesquisa.
Nos anos 1950, a estrutura científica local ainda era limitada. O médico identificava os frascos com soro dos pacientes e os levava para serem despachados pela Vasp. Os exames eram realizados fora de Goiás, e parte do trabalho continuava em sua própria casa. Rassi classificou esse período como uma pesquisa “artesanal”.
Ele também congelou soros e formou uma soroteca que mais tarde permitiu estudos envolvendo mais de mil pessoas. Ao organizar uma investigação sobre a fase aguda da doença de Chagas, em 1956, escreveu para 55 médicos de cidades goianas situadas em áreas endêmicas. Em menos de dois anos, recebeu 18 casos, que deram origem a uma publicação na Revista Goiana de Medicina.
A pesquisa ajudou a consolidar Goiânia como centro de estudos sobre Chagas. O cardiologista Adib Jatene participou de conversas que levaram à criação de uma estrutura específica para a doença no Instituto Dante Pazzanese, em São Paulo. O médico Elias Boainain foi a Goiânia para aprender procedimentos de tratamento, sorologia e xenodiagnóstico.
Reconhecimento científico e legado
Em 2006, Anis Rassi participou de um estudo publicado no New England Journal of Medicine sobre o risco de morte em pacientes com cardiopatia chagásica. A pesquisa avaliou 424 pacientes e validou o modelo em outro grupo com 153 pessoas. O escore prognóstico desenvolvido no trabalho passou a ser conhecido na literatura médica como escore de Rassi.
A Universidade Federal de Goiás registra que Rassi atuou como consultor da Organização Mundial da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde. Em 1998, recebeu da universidade o título de Professor Emérito. A instituição também atribui a ele cerca de 84 artigos e 29 prêmios e láureas.
Casado com Evelyn Gabriel Rassi desde 1956, teve cinco filhos. Sérgio, Anis Jr., Alexandre e Gustavo seguiram a medicina, enquanto Maria Cristina escolheu a psicologia. Cinco netos também optaram pela medicina. O hospital que leva seu nome foi inaugurado em Goiânia em 2003.
Anis Rassi morreu em Goiânia, em 6 de junho de 2021, aos 91 anos. A trajetória que começou com um menino de Vianópolis imaginando cirurgias em galinhas terminou associada à formação de uma escola goiana de pesquisa sobre a doença de Chagas e à presença de seu nome na literatura médica internacional.




