MARINGÁ — Uma propaganda eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva exibida no início de outubro de 2002 reuniu mulheres grávidas, modelos, mães e crianças em uma plantação de trigo na região de Maringá, no noroeste do Paraná. Ao som de “Bolero”, de Maurice Ravel, a peça questionava que país os eleitores queriam deixar para a próxima geração.
A gravação teve cerca de 50 participantes. Algumas mulheres usavam barrigas de espuma e cada uma recebeu entre R$ 25 e R$ 40, valores equivalentes hoje a aproximadamente R$ 100 e R$ 160. A produção foi criada pelo publicitário Duda Mendonça (1944-2021), responsável pela campanha de Lula, para ajudar a suavizar a imagem do candidato, que disputava a Presidência pela quarta vez.
A estratégia de 2002 apostava na conciliação, na aproximação com o centro e no slogan “a esperança vai vencer o medo”. Para José Dirceu, que coordenou a campanha, o filme combinava família, mulher e futuro do país.
Entre as participantes estava Juliane Souza, então com 26 anos e grávida de Gabriela. Ela aceitou o convite da agência que a representava, emocionou-se com a produção e votou em Lula naquele ano. Mais de duas décadas depois, aos 49 anos, trabalha como motorista de aplicativo em Maringá e afirma que não pretende votar novamente no presidente.
Juliane diz que a aprovação a Lula durou “dois ou três anos”, mas ressalta que as mudanças em sua vida não podem ser atribuídas apenas aos governos que se sucederam desde a gravação. Em 2008, ficou viúva e precisou voltar ao mercado de trabalho. Durante a pandemia, passou a entregar máscaras produzidas pela mãe e a transportar pacientes para tratamentos em Curitiba e São Paulo.
Os três filhos chegaram ao ensino superior. Gabriela, que ainda estava na barriga da mãe durante a filmagem, tornou-se publicitária. A filha mais velha é biomédica, e o caçula cursa análise e desenvolvimento de sistemas. Gabriela, aos 23, afirma que a família nunca passou fome, mas busca mais segurança financeira.
Mãe e filha acompanham nomes como Renan Santos e Ronaldo Caiado, mas ainda não definiram o voto. Outra participante, uma empresária de Maringá que não quis ser identificada, afirma que nunca teve vínculo com o PT e avalia que o país piorou sob administrações do partido.
L., que tinha dois anos quando apareceu no colo da mãe, hoje tem 26 e nunca assistiu à propaganda completa. Estudou em escolas públicas e conseguiu uma bolsa integral do Prouni para entrar na faculdade. Ele afirma ter sido favorecido por mudanças de governo e se identifica com ideias de centro-esquerda. Na eleição presidencial, considera Lula a opção “menos pior”.
Tatiana Vanessa Soria também participou da produção. Na época, trabalhava em uma agência de modelos, e seu filho Rafael aparecia ainda bebê. Hoje, aos 48 anos, ela é bióloga, mestre, doutora e professora da rede estadual do Paraná. Desde 2002, vota em candidatos do PT para a Presidência.
Após se incomodar com a condução de Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid, Tatiana fez cursos de formação política, estudou autores marxistas e aderiu ao PSOL. Atualmente, mantém pouco contato com o partido, mas continua votando no PT por considerá-lo a força eleitoral com maiores possibilidades de vitória e mais próxima de suas ideias.
Entre 2014 e 2015, Tatiana participou do Ciência sem Fronteiras, durante um doutorado-sanduíche nos Estados Unidos. A bolsa custeou um ano de estudos fora do país. Rafael frequentou uma escola americana e aprendeu inglês; depois, ingressou em uma universidade pública. Para Tatiana, a trajetória do filho reforça o papel central da educação em suas escolhas políticas e sua avaliação positiva do voto em Lula em 2002.



