Pacientes de Minas Gerais enfrentam longos deslocamentos para conseguir atendimento médico, interrupções no fornecimento de remédios de alto custo e problemas relacionados à falta de saneamento básico. Os desafios atingem diferentes regiões do estado e também envolvem os impactos da mineração sobre o meio ambiente e a saúde da população.
Atendimento concentrado na capital
Em Belo Horizonte, ambulâncias de municípios de várias partes de Minas Gerais chegam à região hospitalar levando pacientes em busca de tratamentos de média e alta complexidade. Entre os serviços sob responsabilidade do estado estão cirurgias, transplantes, tratamentos oncológicos, leitos de UTI, hemocentros, a rede de captação de órgãos e laboratórios de vigilância em saúde.
Carlos Roberto da Mata, aposentado de Ipanema, no Leste de Minas, viaja há 12 anos para a capital mineira, onde trata sequelas de um câncer. O município fica a 360 quilômetros de Belo Horizonte. A vendedora Fátima Magalhães também enfrenta viagens demoradas para acompanhar o marido. O transporte disponibilizado pela prefeitura só retorna depois que todos os pacientes são atendidos.
A Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) mantém 14 hospitais. Desse total, há unidades na Grande BH e outras no interior. Para Monique Félix, especialista em gestão de serviços de saúde da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é necessário ampliar a estrutura hospitalar regional e fortalecer a atenção básica nos municípios. Segundo ela, unidades habilitadas para várias especialidades nem sempre têm espaço físico e leitos suficientes, o que aumenta a pressão sobre o transporte municipal.
Falta de medicamentos
O fornecimento de medicamentos, inclusive os de alto custo, também é atribuição do estado. Gilberto Marinho Vasconcelos precisa de um remédio para reposição hormonal depois de um acidente ocorrido em 2010. O medicamento custa mais de R$ 800 e, mesmo após obter na Justiça o direito de recebê-lo, ele teve o fornecimento interrompido.
Sem o remédio, o aposentado relata cansaço, dores no corpo e indisposição. Ele afirma que não tem dinheiro para comprar o produto por conta própria.
Saneamento e mineração
Em Minas Gerais, 78,4% da população é atendida por rede coletora de esgoto, acima da média nacional de 62,3%. Ainda assim, há comunidades sem estrutura adequada. Em Belo Horizonte, a fossa séptica da casa de Kênia Yasmin fica sob o quarto dos filhos. Sem recursos para fazer a limpeza, a família abriu outra estrutura do lado de fora, próxima à tubulação de água. Os filhos tiveram vômitos, diarreias e manchas no corpo associadas, segundo a família, à qualidade da água.
Na Ocupação Fábio Alves, na Região do Barreiro, 130 famílias convivem com a falta de saneamento. A líder comunitária Simeia Rodrigues Rosa afirma que os moradores adoecem com frequência e que o posto de saúde fica cheio.
Monique Félix relaciona a precariedade do saneamento a doenças infecciosas e parasitárias, além de impactos sobre a frequência escolar e a rotina de trabalho das famílias, especialmente quando mulheres precisam acompanhar crianças doentes.
Em Congonhas, na Região Central, moradores relatam preocupação com a poeira de minério produzida por uma mineradora. A empresária Ana Carolina Vieira diz que a sujeira se acumula rapidamente e que familiares passaram mal nos últimos dias.
O estado é responsável pelo licenciamento ambiental da mineração e pela fiscalização dos impactos ambientais e à saúde. A pesquisadora e professora Deborah Malta, da Escola de Enfermagem da UFMG, afirma que a atividade pode provocar poluição, contaminação do solo e do lençol freático. Para ela, cabe ao poder público regular, fiscalizar, punir quando necessário e proteger a população.



