A SpaceX informou em seu prospecto de IPO que não tem certeza de como — ou mesmo se — conseguiria substituir Elon Musk. A empresa também declarou não possuir seguro de vida para pessoa-chave em nome do executivo, cuja liderança é apresentada como essencial para suas tecnologias e sua estratégia de negócios.
O documento alerta que a perda de Musk, por falecimento, invalidez ou outro motivo, poderia afetar de forma significativa a estrutura de gestão. A empresa ainda afirmou que encontrar alguém com a combinação de habilidades e experiência do executivo pode ser um processo longo e incerto.
Controle concentrado
Musk fundou a SpaceX em 2002 e controla 48% da empresa por meio de ações de diferentes classes. As ações Classe A, disponíveis ao público, correspondem a um voto cada. Já as ações Classe B, reservadas aos executivos, têm direito a voto diferenciado.
Como concentra a maior parte das ações com esse poder adicional, Musk tem, essencialmente, controle total do conselho da SpaceX e só pode ser destituído caso decida deixar o cargo. A empresa não aparenta ter um plano formal de sucessão, algo considerado importante por especialistas em governança para reduzir o risco associado a pessoas-chave.
A SpaceX descreveu o executivo como a “força motriz por trás de nosso crescimento, inovação e sucesso operacional”. O prospecto também afirma que a companhia é “altamente dependente da continuidade dos serviços e do desempenho” de Musk.
A Tesla também não tem um plano de sucessão comunicado publicamente por Musk. Em 2023, ele disse ter identificado “indivíduos específicos” para o conselho que gostaria de ver no comando caso algo inesperado acontecesse.
Exposição de investidores
O risco não se limita aos conselhos de administração. Tesla e SpaceX, juntas, representam US$ 3 trilhões em valor de mercado, alcançando milhões de investidores por meio de fundos de índice e planos de aposentadoria 401(k).
A Tesla é avaliada em US$ 1 trilhão e tem presença relevante no Nasdaq 100 e no S&P 500. A SpaceX, depois de um IPO recorde em junho, passou a valer quase US$ 2 trilhões. A empresa teve entrada acelerada no Nasdaq e poderá ser incluída no S&P 500 já em meados de 2027.
Fundos que acompanham índices precisam comprar ações das empresas incluídas nessas carteiras para reproduzir o desempenho dos indicadores. A Nasdaq tem mais de 200 produtos desse tipo, entre eles o Invesco QQQ e o ETF iShares NASDAQ 100, que somam mais de US$ 800 bilhões em ativos.
A avaliação das duas empresas também incorpora o chamado “múltiplo Musk”, prêmio não oficial associado à disposição dos investidores de acompanhar os planos do executivo. Entre as ambições citadas estão data centers orbitais, a colonização de Marte e a produção comercial de milhões de robôs humanoides. Musk reiterou essa direção na terça-feira (1º), durante um discurso na Cúpula do G20 na Carolina do Norte.
Dan Ives, analista de tecnologia, disse: “Só existe um Elon Musk, e não vão criar outro igual a ele”. Para ele, os investidores apostam tanto no executivo quanto nas empresas.
A comparação com Steve Jobs
Especialistas em governança corporativa comparam a situação à dependência que a Apple tinha de Steve Jobs, cofundador e CEO que morreu em 2011, aos 56 anos. Em 2008, uma notícia falsa sobre a morte de Jobs fez as ações da empresa caírem 9%.
A Apple, porém, criou a Apple University, um programa interno secreto de treinamento executivo destinado a preservar a visão de Jobs. Quando ele deixou o cargo em agosto de 2011, Tim Cook, escolhido para sucedê-lo, já era conhecido em Wall Street. As ações recuaram brevemente 5% antes de se recuperarem.
As ações da Tesla também reagiram a episódios ligados a Musk. Em 2018, depois de ele dizer que trabalhava “semanas de 120 horas” e usava Ambien para dormir, os papéis despencaram. Em 2025, enquanto o executivo concentrava sua atenção em seu “departamento de eficiência governamental” em Washington, a Tesla perdeu quase metade do valor entre janeiro e abril.
Especialistas avaliam que a questão central é saber se a visão e as capacidades de Musk foram incorporadas pelos representantes que administram o cotidiano das empresas. A SpaceX e a Tesla não responderam aos pedidos de comentários.
Dan Ives afirmou que, em algum momento, um plano de sucessão terá de ser discutido. O risco, embora considerado pelos investidores, continua em segundo plano.




