A produção de pimenta chili em Kunri, no sudeste do Paquistão, enfrenta uma combinação de calor extremo, inundações, seca e custos crescentes. A cidade é considerada a capital nacional do cultivo, mas agricultores tradicionais afirmam que as condições climáticas estão dificultando a continuidade de um modo de vida mantido por gerações.
Em uma plantação de Ahsan Ali Dars, áreas antes verdes deram lugar a lavouras queimadas, solo seco e espaços sem cultivo. Em poucas horas, a temperatura passaria dos 49°C. Neste ano, o calor também impediu o plantio até março. Dars, que havia antecipado a semeadura para março em anos anteriores, adiou o trabalho para maio, encurtando o período de cultivo e deixando as plantas jovens mais expostas ao estresse térmico.
A agricultura representa quase um quarto da economia paquistanesa e emprega metade da força de trabalho. O país, com mais de 250 milhões de habitantes, está entre os mais vulneráveis do mundo à mudança climática. Inundações em 2022 destruíram quase 1,8 milhão de hectares de terras agrícolas, e produtores das províncias de Sindh e Punjab dizem que os efeitos ainda permanecem.
Produção sob pressão
A região de Kunri responde por mais de 85% da produção de pimenta chili do Paquistão. Durante a temporada posterior à colheita, mais de 200 toneladas eram vendidas por dia no mercado local. Em novembro passado, centenas de produtores e compradores se reuniram entre pilhas de pimentas que ultrapassavam 2,4 metros de altura.
Kunri tem 25 mil habitantes e fica na província de Sindh, cerca de 110 quilômetros a oeste da fronteira com a Índia. A cidade costuma ser pacata, mas ganha movimento nos dias de negociação. Agricultores e trabalhadores lidam com a produção enquanto compradores circulam entre os montes de pimenta.
Para tentar manter as plantas vivas até a colheita, que começa em setembro, Dars e outros produtores passaram a aplicar mais fertilizante no solo. No fim de julho, as primeiras chuvas das monções chegaram aos campos. A precipitação, porém, também pode trazer excesso de umidade e risco de destruição das lavouras. “Se chover demais, a lavoura será destruída”, disse Dars.
Depois da colheita, as pimentas são secas no chão durante 10 dias. A umidade pode favorecer o surgimento de fungos e tornar o processo ainda mais arriscado em períodos de inundação. Pequenos agricultores pedem há anos instalações modernas para fazer a secagem em ambientes controlados.
Perdas e alternativas
Muhammad Khan, autoridade distrital de Kunri, estima que até um terço da produção seja perdido nas etapas de secagem e processamento. Ele afirmou que a névoa noturna é um dos principais problemas para os pequenos proprietários. Os grandes donos de terras, segundo Khan, conseguem absorver melhor os custos adicionais provocados pelas mudanças no clima.
O governo de Sindh aprovou um novo mercado de pimentas em Kunri, com armazéns e espaços para leilões destinados a proteger melhor a produção. Ainda assim, a queda na produtividade, o encarecimento dos fertilizantes e os problemas persistentes de irrigação levaram agricultores a diversificar suas plantações.
Dars reservou 1,6 hectare de sua propriedade para plantar 800 pés de mamão. Mesmo com a mudança, ele avalia que os eventos climáticos extremos podem comprometer diferentes culturas. “Parece que a natureza já não está mais do nosso lado”, afirmou.



