Ana Maria Braga, de 77 anos, relatou durante o Mais Você que sofreu uma fissura na córnea depois de dormir com o ar-condicionado quente ligado. Ela contou que acordou com o olho ressecado e muita dor e precisou ser atendida antes de entrar no ar, na última quarta-feira (16).
O oftalmologista Gustavo Bonfadini, doutor em Oftalmologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que o ressecamento intenso pode provocar uma lesão superficial na córnea, chamada de abrasão ou erosão do epitélio corneano. Na maioria dos casos, o quadro evolui bem quando é diagnosticado e tratado corretamente.
Como o ar quente afeta os olhos
O ar-condicionado e o aquecedor reduzem a umidade do ambiente e aumentam a evaporação da lágrima. Durante o sono, o efeito pode ser maior em pessoas que não fecham completamente as pálpebras, condição conhecida como lagoftalmo noturno. Com parte da córnea exposta, a superfície ocular pode ressecar e ficar mais sujeita a uma erosão.
A córnea tem muitas terminações nervosas. Por isso, uma lesão pequena pode provocar dor intensa. Outros sinais de atenção são vermelhidão importante, sensação de corpo estranho, lacrimejamento, dificuldade para manter o olho aberto, sensibilidade à luz e visão embaçada. Redução significativa ou súbita da visão exige avaliação urgente.
Segundo Bonfadini, dor forte não deve ser atribuída automaticamente ao ressecamento, porque infecções e outras doenças da córnea podem apresentar sintomas semelhantes. O diagnóstico depende de exame oftalmológico.
Recuperação e prevenção
A córnea tem capacidade de regeneração. Pequenas abrasões podem apresentar melhora importante em 24 a 48 horas, enquanto lesões maiores podem levar alguns dias para cicatrizar. Quando o problema é superficial, identificado rapidamente e tratado de forma adequada, a recuperação costuma ser completa e sem sequelas visuais.
Mesmo assim, a lesão não deve ser banalizada. O rompimento do epitélio reduz a proteção da superfície ocular e pode favorecer inflamações e infecções. Em situações mais graves, podem ocorrer úlceras, ceratites e cicatrizes na córnea, com possível comprometimento da visão. Também existe a possibilidade de erosão recorrente, com novos episódios de dor intensa ao abrir os olhos pela manhã semanas ou meses depois.
Para reduzir o ressecamento, a orientação é evitar que o fluxo do ar-condicionado ou do aquecedor fique direcionado diretamente para o rosto durante a noite. Um umidificador pode ajudar em ambientes muito secos. Lágrimas artificiais ou colírios lubrificantes podem ser indicados para pessoas com sintomas de olho seco. Quando o uso é frequente, o médico pode preferir formulações sem conservantes.
Em alguns casos, o oftalmologista também pode avaliar o uso de géis ou pomadas lubrificantes antes de dormir. Idosos, usuários de lentes de contato e pessoas com olho seco, blefarite ou disfunção das glândulas de Meibomius podem ser mais suscetíveis ao problema. Quem não fecha completamente as pálpebras durante o sono também está entre os grupos de maior risco.
Dor ocular intensa, vermelhidão, lacrimejamento importante, fotofobia, sensação persistente de corpo estranho ou alteração da visão justificam uma avaliação médica. A recomendação é não tentar tratar o quadro apenas com colírio por conta própria e procurar um oftalmologista.




