JUAZEIRO DO NORTE — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o povo brasileiro é quem deve decidir o destino do país e rejeitou qualquer participação dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. A declaração foi dada nesta sexta-feira, em entrevista à Rádio Progresso, de Juazeiro do Norte (CE), e retomada à noite, depois de uma caminhada de campanha na cidade.
Lula disse ter transmitido essa posição a Donald Trump. Ao ser questionado sobre a possibilidade de interferência americana no processo eleitoral, afirmou: “nós não aceitamos ingerência de ninguém nas eleições”. O presidente também declarou que uma eventual tentativa de envolvimento dos Estados Unidos perderia.
Durante a caminhada, Lula afirmou que uma possível ajuda americana não alteraria a decisão dos brasileiros. Ele citou pernambucanos e cearenses e disse que o povo do país, apesar de humilde, simples e generoso, tem orgulho e decide por conta própria. Também declarou que o Brasil tem como dono o povo brasileiro.
Relação com Trump e tarifas
O Palácio do Planalto descreveu como “amistoso e cordial” o diálogo entre Lula e Trump. O presidente brasileiro classificou como infundadas as alegações norte-americanas usadas para justificar a recente imposição de tarifas sobre produtos do Brasil. Na conversa, Trump não levantou suspeitas sobre o sistema eleitoral brasileiro nem questionou as urnas eletrônicas. A abordagem foi considerada casual e não representou uma cobrança de explicações ao Brasil.
Lula afirmou manter uma boa relação com Trump e disse que o Brasil pode buscar outros compradores caso os Estados Unidos deixem de comprar seus produtos. Segundo o presidente, a taxação reduziu a relação comercial entre os dois países, mas o Brasil ampliou as vendas para 17 países. Ele acrescentou que todos os países que visitou cresceram mais de 10% e defendeu que o Brasil seja respeitado.
Negociações comerciais
Depois da ligação entre Lula e Trump no fim de agosto, Brasil e Estados Unidos retomaram as negociações sobre as tarifas aplicadas às exportações brasileiras. Na última segunda-feira (31), os ministros Mauro Vieira, do Itamaraty, e Márcio Elias Rosa, do MDIC, participaram de uma conversa virtual com o representante comercial americano, Jamieson Greer, e integrantes dos dois governos.
Em nota conjunta, os ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio informaram que o governo brasileiro considera discriminatório e injusto o tratamento dado pelos Estados Unidos aos produtos nacionais. As pastas também disseram que o Brasil está aberto ao diálogo.
Os Estados Unidos anunciaram duas tarifas adicionais: 25%, sob a alegação de práticas desleais brasileiras contra empresários americanos em seis setores, e 12,5%, relacionada à importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. O Brasil acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC), afirmando que as medidas são discriminatórias e violam compromissos americanos na entidade.
O governo dos Estados Unidos informou estar à disposição para conversar, mas não indicou se as tarifas serão revertidas. Diplomatas brasileiros dizem não esperar que uma eventual decisão da OMC encerre as medidas, embora considerem que a ação registre internacionalmente a posição do Brasil.



