A escolha para as eleições de 2026 passa por mais do que conhecer o nome e o número de cada candidato. O eleitor também precisa observar as funções do cargo em disputa, o histórico político, os financiadores, as alianças partidárias e os efeitos práticos das propostas apresentadas.
O debate eleitoral deste ano ocorre a menos de duas semanas do primeiro turno, em meio às notícias sobre o caso Master e à crise do Supremo Tribunal Federal (STF). Especialistas ouvidos para a pauta apontaram caminhos para comparar candidaturas e evitar armadilhas do sistema eleitoral.
O cargo define o que pode ser prometido
Uma das verificações iniciais é entender as atribuições de cada função. Deputados podem aprovar e modificar leis, fiscalizar o Poder Executivo e participar da elaboração do orçamento público, inclusive por meio de emendas e votações. Eles não executam diretamente políticas públicas.
Por isso, promessas de deputados para construir hospitais ou pavimentar ruas podem indicar desconhecimento ou desvio das competências do cargo. A execução dessas ações cabe ao Poder Executivo.
O presidente exerce a direção da administração federal, nomeia ministros, comanda as Forças Armadas, envia propostas orçamentárias ao Congresso Nacional, sanciona ou veta leis e mantém relações com outros países, entre outras atribuições.
Governadores nomeiam secretários estaduais, sancionam ou vetam leis aprovadas pelas Assembleias Legislativas, administram a segurança pública estadual e a rede estadual de ensino, além de hospitais regionais e rodovias estaduais.
Senadores representam a unidade federativa pela qual foram eleitos, discutem e votam leis federais, participam de sabatinas de ministros do STF e diretores de agências reguladoras e julgam autoridades.
Histórico, apoios e propostas
A análise deve incluir o currículo, a atuação anterior e a consistência das promessas. Para candidatos que já ocupam cargos, o eleitor pode verificar como votaram e como participaram de projetos relevantes.
Também é possível consultar no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) as propostas de governo, a declaração de bens e a prestação de contas, com a relação dos doadores de campanha. Entre os pontos a observar estão os setores que apoiam a candidatura, como grandes corporações, instituições financeiras, sindicatos e movimentos sociais.
O professor Francisco Uribam Xavier de Holanda, da Universidade Federal do Ceará (UFC), afirmou que os processos de financiamento de campanha, o uso do fundo partidário e os financiamentos privados podem ser difíceis de acompanhar. Ele também alertou que discursos eleitorais nem sempre deixam claros os interesses defendidos.
Propostas específicas devem ser diferenciadas de discursos genéricos. Uma forma de fazer isso é perguntar se a medida apresentada enfrenta a origem do problema e de que maneira afetaria a vida do eleitor.
O partido também entra na conta
Candidatos eleitos atuam dentro de partidos e bancadas. A orientação partidária pode influenciar votações, especialmente no Poder Legislativo. Por isso, além da trajetória individual, o eleitor deve observar o programa da legenda, suas posições políticas e os partidos aos quais está associada.
Entre os critérios estão o histórico de votações, as pautas apoiadas, a consistência ideológica e as alianças firmadas nesta e em outras eleições. A cientista política Naiara Sandi de Almeida Alcantara, da Universidade Federal do Pará (UFPA), destacou que o discurso individual pode não coincidir com a diretriz partidária adotada depois da eleição.
Atenção ao sistema proporcional
Nas eleições para deputados federais, estaduais e distritais, além de vereadores nas eleições municipais, é usado o sistema proporcional. Nesse modelo, os votos recebidos por candidatos de um partido ou federação são somados para calcular o número de cadeiras conquistadas.
O mecanismo pode beneficiar os chamados puxadores de voto. Em 2010, Francisco Everaldo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, recebeu mais de 1,35 milhão de votos e ajudou a eleger outros três candidatos à Câmara dos Deputados.
No exemplo apresentado pelos especialistas, um Estado com dez cadeiras e 2 milhões de votos válidos teria quociente eleitoral de 200 mil votos. Uma legenda ou federação que somasse 800 mil votos conquistaria quatro assentos, ocupados pelos filiados mais votados que cumprissem a cláusula de barreira individual de ao menos 10% do quociente eleitoral.
A recomendação é consultar a lista oficial de candidatos da legenda e não escolher um partido motivado apenas por uma celebridade. O número da candidatura identifica o candidato e também o partido, o que permite saber quem mais pode ser beneficiado pelos votos.
Regras para o dia da votação
O primeiro turno será realizado em 4 de outubro. Cerca de 158,7 milhões de eleitores aptos deverão escolher deputados federais, estaduais ou distritais, senadores, governadores e o presidente da República.
O eleitor pode levar um papel com nomes e números para consultar na cabine. O celular, máquinas fotográficas, filmadoras e outros equipamentos capazes de registrar o voto devem ficar fora do local de votação. Se necessário, o aparelho pode ser deixado com os mesários. A regra existe para proteger o sigilo e evitar a comprovação do voto por imagens ou vídeos.
É permitida a manifestação individual e silenciosa por meio de broches, adesivos, camisetas e bandeiras políticas. Não são permitidas manifestações coletivas ou ruidosas, abordagens, aliciamento ou tentativas de influenciar outros eleitores.
O eleitor pode se ausentar do trabalho pelo tempo necessário para votar, sem prejuízo no salário. Pessoas com mais de 80 anos têm preferência, e eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida podem contar com auxílio de alguém escolhido por eles.



