Não procede a informação de que a Polícia Federal teria afirmado, em relatório, não haver indícios de crime nas conversas entre o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. A corporação negou ser autora do documento divulgado nas redes sociais pelo parlamentar e por apoiadores. A ferramenta de verificação da OpenAI também apontou que o material foi produzido por modelos de inteligência artificial.
Publicações que compartilhavam o documento falso somavam pelo menos 500 mil visualizações no X nesta quinta-feira (3).
Documento atribuído à PF tem sinais de falsificação
É falso o arquivo atribuído à Polícia Federal que afirma que as mensagens trocadas por Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro não apresentariam indícios de crime e indicariam apenas “contato de natureza pessoal e profissional entre os interlocutores”.
A Polícia Federal afirmou nesta quinta-feira (3) que o documento não é verdadeiro. A instituição destacou que não criou nem a imagem nem o conteúdo da página que passou a circular nas redes sociais.
O arquivo também foi analisado pela ferramenta de verificação da OpenAI, que identificou a presença de SynthID. Trata-se de uma marca d’água digital inserida em conteúdos gerados ou alterados por inteligência artificial e desenvolvida para continuar detectável mesmo depois de mudanças no arquivo.
A OpenAI confirmou que a presença do SynthID mostra que houve algum tipo de manipulação com ferramentas de inteligência artificial.
O documento ainda traz problemas que podem estar relacionados à geração de conteúdo sintético. Entre eles estão:
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O emblema da PF usado na imagem é diferente do oficial. Na versão original, as fitas têm contornos e dobras mais nítidos, além de um desenho um pouco diferente do reproduzido no arquivo falso;
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O acento agudo da palavra “Polícia” também aparece de forma distinta: no emblema original, ele é substituído por um triângulo;
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A sequência numérica dos itens não segue lógica, pois passa de 7 diretamente para 7.3, sem incluir 7.1 e 7.2;
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Existem erros de português, como a expressão “contato salvado”, em vez de “contato salvo”;
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As datas não são coerentes. O documento teria sido elaborado no mesmo dia em que os dados foram extraídos, no dia 18 — um dia depois da prisão de Daniel Vorcaro;
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A montagem emprega elementos e nomes que não costumam fazer parte de documentos oficiais da PF, entre eles emojis e a expressão “Relatório de Análise de Dados”.
Nikolas foi mencionado nesta quinta-feira (3) em reportagens que divulgaram mensagens e áudios nos quais o deputado solicita ajuda a Vorcaro para liberar “um ativo de minério”, em março de 2025. Em outro trecho, o ex-dono do Master afirma que “bancou todos os voos” do deputado.
Depois da divulgação das reportagens, Nikolas publicou um vídeo no qual negou ter proximidade com o ex-banqueiro e declarou que as mensagens não mostravam nada relevante. O próprio deputado compartilhou o documento falso nos stories do Instagram.
A assessoria de Nikolas afirmou que ele não sabia que o arquivo era falso e que apenas republicou o conteúdo divulgado inicialmente por outro portal.
A legislação brasileira prevê punições para a falsificação de documentos e de símbolos de órgãos públicos. Pelo Código Penal, a falsificação total ou parcial de documento público pode levar a pena de dois a seis anos de reclusão, além de multa. A mesma punição vale para quem falsifica ou utiliza de forma indevida marcas, logotipos, siglas ou outros símbolos usados na identificação de órgãos da administração pública.
Ainda assim, a definição de responsabilidade pela montagem depende da análise das circunstâncias em que o material foi produzido e divulgado, além da identificação de quem criou efetivamente a imagem do documento falso.
Colaboraram Luiza Vezzá e Giovanna Massaro
Como a verificação foi feita
Primeiro, a imagem foi enviada à ferramenta de verificação da OpenAI, que confirmou a manipulação com inteligência artificial. Depois, foram examinadas as inconsistências presentes na imagem do documento.
Na sequência, a Polícia Federal foi procurada e confirmou que não produziu o arquivo.
A assessoria de Nikolas Ferreira também foi contatada.



