SÃO PAULO — Cartas escritas nos anos 1980 passaram a ser lidas por clientes de uma cafeteria no Centro de Salvador. As correspondências, que contam parte da relação entre Arthur e Laura, foram encontradas por acaso pelo fotógrafo Adriano Viana, dono do Café e Câmera, no bairro do Santo Antônio Além do Carmo.
Os nomes do remetente e dos destinatários foram modificados. Nas cartas, Arthur relata um período do relacionamento entre 1983 e 1984. Pelos registros, ele morava na capital baiana e teria se mudado para Aracaju por motivos ligados a trabalho ou estudos. O casal mantinha encontros e alternava viagens de ônibus entre as duas capitais.
As primeiras mensagens são marcadas pela saudade, com apelidos carinhosos escritos à mão ou à máquina. Em um dos trechos, Arthur afirma: "Mais e mais a saudade está chegando... E é você presente, é você na minha lembrança."
Do romance ao término
Com o passar dos meses, as cartas também registram discussões motivadas por ciúmes. Arthur admite “safadezas”, mas diz que Laura é insubstituível. Em outra mensagem, afirma que ela seria comunicada caso ele tivesse outra pessoa.
O fim do relacionamento aparece em uma carta de 1984 enviada por Arthur a um homem que poderia ser familiar ou amigo de Laura. O conteúdo indica que ele teria sido informado antes dela sobre o término. Depois, Laura recebeu uma carta datilografada na qual Arthur diz que, após três anos de relacionamento, não sentia mais amor.
Além de revelar o fim do namoro, a correspondência mostra que os dois estavam noivos. Arthur devolveu 50 mil cruzeiros, valor recebido como presente de um familiar de Laura para o noivado.
As cartas também misturam assuntos cotidianos, como transferências bancárias e compras de cuecas. Entre as referências estão o Cruzeiro, o custo elevado das ligações telefônicas e discos do cantor espanhol Julio Iglesias.
Cartas entre cafés e câmeras
Adriano contou que comprou os envelopes em um antiquário depois de se interessar pelo conteúdo. Ele acredita que as cartas enviadas por Arthur estavam com Laura e que, em algum momento, ela se desfez delas.
No Café e Câmera, a caixa não fica exposta logo na entrada. O espaço, que faz parte da Igreja da Ordem Primeira do Carmo, reúne fotografias feitas por Adriano, discos de colecionador e câmeras antigas. As cartas ficam sobre uma das mesas e são descobertas pelos clientes durante a visita.
A história levou a professora Bárbara de Carvalho, de 33 anos, a escrever uma série de cartas para a cafeteria. O presente foi entregue a Adriano no aniversário de três anos do espaço, em setembro deste ano. As novas mensagens foram colocadas ao lado das correspondências antigas.
Para Bárbara, a troca de cartas mostra uma relação diferente com o tempo, marcada pela dedicação à escrita e pela espera por uma resposta. Sem saber se Arthur e Laura voltaram a se encontrar ou seguiram caminhos diferentes, os visitantes são convidados a imaginar o que aconteceu depois do término.



