O Canadá começou a aplicar tarifas de 15% a 50% sobre centenas de produtos dos Estados Unidos nesta terça-feira, em uma resposta às medidas comerciais adotadas pelo governo de Donald Trump. As novas taxas alcançam cerca de US$ 20 bilhões em mercadorias americanas e foram apresentadas como uma forma de pressionar Washington a retomar as negociações.
Entre os produtos afetados estão itens siderúrgicos, motocicletas, cosméticos e queijos. A cobrança passou a valer às 0h01 no horário de Nova York. No caso de diversos produtos de aço, a tarifa subiu de 25% para 50%.
A decisão foi tomada pelo primeiro-ministro Mark Carney, que retirou, há um ano, muitas das medidas de retaliação adotadas durante o governo de Justin Trudeau. A reação canadense pode atingir especialmente exportadores de Michigan e Ohio, estados americanos com forte comércio com o Canadá e que terão eleições legislativas de meio de mandato em novembro.
Negociações interrompidas
Representantes dos dois governos passaram semanas tentando estabelecer um acordo para reduzir as tensões. Donald Trump anunciou em 18 de agosto um entendimento preliminar e deu três dias para a conclusão dos detalhes, mas as conversas não avançaram. Depois disso, Canadá e Estados Unidos trocaram acusações públicas sobre a responsabilidade pelo fracasso.
As tarifas americanas de 50% sobre aproximadamente US$ 20 bilhões em produtos canadenses começaram a valer em 22 de agosto. Três dias depois, autoridades do Canadá divulgaram as medidas de resposta, com alcance semelhante em valor.
Brian Clow, ex-conselheiro sênior do governo Trudeau para comércio e relações com os Estados Unidos, disse que Ottawa pretende aumentar a pressão econômica para estimular o retorno às negociações, e não iniciar um conflito comercial permanente.
Trump também ameaçou impedir a venda de jatos da Bombardier Inc. nos Estados Unidos. A fabricante canadense tem mais de 2.800 fornecedores no país. O modelo Global 7500 utiliza asas produzidas no Texas, sistemas aviônicos fabricados em Iowa e motores feitos em Indiana.
Risco de novas medidas
Autoridades americanas não informaram quando ou como o presidente poderá reagir. O representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que Washington pode adotar novas tarifas e até proibir importações, sem indicar prazo.
Carney disse que exigências da Casa Branca eram inaceitáveis e poderiam afetar a soberania do Canadá e setores como o de caminhões pesados. O primeiro-ministro também afirmou que pretende alcançar um acordo duradouro e que seu governo está disposto a voltar à mesa quando os americanos estiverem preparados.
O governo canadense informou que, até a tarde de domingo, não havia novas reuniões marcadas com os Estados Unidos. A Casa Branca e o escritório de Greer não responderam aos pedidos de comentário feitos antes da entrada em vigor das tarifas.
O secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, acusou Carney de escolher o confronto por razões políticas internas. Já o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, defendeu a retomada do diálogo e disse que a solução é importante para os dois países.
Efeitos econômicos
O impacto das medidas é acompanhado em meio a um desempenho desigual da economia canadense. Depois de um período de estagnação, o crescimento acelerou no segundo trimestre. Neste ano, porém, o número de pessoas empregadas aumentou, em média, apenas 3.400 por mês. A agência nacional de estatísticas informou que as demissões são mais frequentes em setores dependentes das exportações para os Estados Unidos.
Um relatório de Tony Stillo e Michael Davenport, da Oxford Economics, estima que o efeito conjunto das tarifas americanas, da resposta canadense e dos programas federais de apoio reduzirá a produção econômica em cerca de 0,3% em comparação com o cenário-base. O cálculo considera apenas as medidas já anunciadas e não inclui uma nova escalada.
Após o fracasso das negociações no mês passado, Trump anunciou a intenção de elevar de 25% para 50% as tarifas sobre automóveis e de criar uma taxa de 50% sobre autopeças, com previsão de início em 1º de janeiro. Essas medidas ainda não foram formalizadas.
Pesquisas também indicam apoio à estratégia de Carney. Levantamento realizado pelo Nanos Research na semana passada mostrou que quase três quartos dos entrevistados avaliaram como boa ou muito boa a condução do tema comercial pelo primeiro-ministro.




