Flora Irajá sobreviveu a um acidente de carro na infância, perdeu os pais e, anos depois, enfrentou a morte de duas filhas que nasceram com uma síndrome que afetava o desenvolvimento físico. Hoje, trabalha nas redes sociais falando sobre moda e vida e afirma que encontrou na coragem o caminho para continuar.
Aos 4 anos, Flora viajava com a família entre São Paulo e Rio de Janeiro quando o carro bateu contra um caminhão de boi e, segundos depois, pegou fogo. Todos foram dados como mortos. Na primeira colisão, porém, Flora foi lançada para uma moita, enquanto a cestinha com a irmã Nani, ainda bebê, foi parar sob o carro. Oito horas depois, a menina acordou e foi encontrada por um dentista que passava pelo local. Ele levou as duas crianças ao hospital.
Após dois meses em coma, Flora e Nani sobreviveram. A decisão judicial determinou que elas ficassem com o avô paterno, Hernani de Irajá, pintor e sexólogo brasileiro. Criada no Cosme Velho, Flora convivia com o avô durante uma hora por dia, entre 18h e 19h. “Era uma hora só, mas era uma hora plena”, lembra.
Na escola, outras crianças diziam que Flora não tinha dentes porque não tinha mãe para cuidar dela. Ela conta que não se abalava e cuidava de si e do irmão. Aos oito anos, perdeu o avô. A adolescência, segundo ela, foi feliz, marcada também pelo gosto de se vestir de forma diferente.
Maternidade e perdas
Edgardo, primo que a visitou depois do acidente, foi quem contou a Flora, ainda criança, que a família havia morrido. Anos mais tarde, os dois namoraram, casaram e tiveram filhos. Depois de enfrentarem dificuldades financeiras, Flora engravidou de Letícia, que nasceu sem tônus. O diagnóstico foi síndrome de Caffey, mas nunca houve confirmação definitiva.
Camila, a segunda filha, nasceu com a mesma síndrome. As duas meninas eram inteligentes, mas não se desenvolviam fisicamente. O tratamento com cortisona trouxe melhora, mas ambas morreram poucos anos depois.
Grávida do terceiro filho após o enterro de Camila, Flora fez um pedido a Santa Clara: se recebesse uma rosa vermelha de um homem forte que não fosse seu marido dentro de 30 dias, entenderia que o bebê nasceria saudável. Um mês depois, pouco antes da meia-noite, um anfitrião colheu uma rosa vermelha em um roseiral e entregou a ela. Degas nasceu perfeito.
Flora e Edgardo se separaram mais tarde, mas continuam amigos. Ela se casou com Samuel e passou a falar sobre moda e vida nas redes sociais. Diz sentir-se realizada por ajudar outras mulheres. Ao explicar como atravessou tantas perdas, resume: “Ser feliz é competência”.



