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Flávio Bolsonaro admitiu menos parcelas de filme financiado por Vorcaro

Relatórios e mensagens indicam que os pagamentos para a cinebiografia de Bolsonaro continuaram depois do período admitido pelo senador.

Flávio ao lado de Mario Frias (à esq.), produtor do filme, Jim Caviezel, ator que interpreta Jair Bolsonaro, e Carlos Bolsonaro
								
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								Crédito: Reprodução
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Breno Pires, de Brasília 01 Set 2026

Quando conversas comprometedoras de Daniel Vorcaro vieram a público, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, procurou a imprensa para apresentar sua versão. Em entrevista, reduziu a importância do áudio em que cobrava do banqueiro recursos para financiar Dark Horse, cinebiografia de seu pai. Já no fim da conversa, afirmou também que Vorcaro não fazia qualquer pagamento para o filme havia meses, desde que as suspeitas sobre as fraudes do Master foram divulgadas. “Olha só. O último pagamento que ele fez [...] foi em maio de 2025”, declarou.

A afirmação, porém, não correspondia aos registros. Uma reportagem publicada neste mês mostrou que, em 16 de setembro de 2025, Vorcaro encaminhou outra parcela, de 1,6 milhão de dólares, ao Havengate Development Fund, fundo americano responsável por administrar os recursos de Dark Horse. O valor exato da transferência foi de 1 milhão, 666 mil e 667 dólares. A informação aparece em um relatório do Coaf, órgão que acompanha operações financeiras, obtido pela reportagem. O documento indica que a relação financeira entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro se estendeu por muito mais tempo do que o senador reconheceu.

O dinheiro foi transferido oito dias depois de Flávio mandar uma mensagem ao banqueiro para cobrar parcelas que estavam atrasadas. Com esse pagamento, que ainda não era conhecido, a soma enviada por Vorcaro para a cinebiografia de Bolsonaro subiu de 10,6 para 12,3 milhões de dólares. Pela cotação vigente naquele período, o montante representava mais de 65 milhões de reais.

Há sinais, ainda, de que outro pagamento possa ter sido feito depois de uma nova cobrança de Flávio. Na manhã de 22 de outubro, no terceiro dia de filmagens, o senador voltou a entrar em contato com Vorcaro. Às 8h54, escreveu: “Bom dia, mermão! Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite.” Nove minutos depois, reforçou o pedido: “Mais uma vez, com toda a liberdade que temos, se não der me fala que procuro urgente outro caminho.” Às 9h22, o banqueiro respondeu: “Deixa comigo irmão, vou ver agora.”

A cobrança teve resultado. Uma parte inédita das conversas por WhatsApp entre Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que colaborou na captação de recursos para o longa, mostra que, menos de 1 hora depois das mensagens de Flávio, Miranda perguntou ao banqueiro: “Consegue liberar as parcelas do filme?” Em seguida, completou com um emoji: “Se não vai parar tudo por lá 😐”. Vorcaro respondeu: “Sim. Liberei mais uma hoje”. Miranda então disse: “Vou avisá-los. Flávio disse que iria te ligar tb.” Na sequência, Vorcaro pediu que Miranda se desculpasse com Flávio pelos “atrasos” das parcelas. Caso esse pagamento de 1,6 milhão de dólares tenha sido realmente feito, como afirmou o banqueiro, o total desembolsado por ele alcançará 14 milhões de dólares, equivalentes a 72 milhões de reais.

Parcelas e versões apresentadas

De acordo com os dados já conhecidos, o acordo firmado entre o banqueiro e o candidato à Presidência previa o pagamento de 24 milhões de dólares. Com a transferência realizada em setembro, chega a sete o número de parcelas reconhecidamente pagas por ordem de Daniel Vorcaro para atender a Flávio Bolsonaro. Se o novo repasse de outubro for confirmado, será a oitava parcela.

Questionado sobre o motivo de ter omitido que sua relação financeira com o banqueiro havia se prolongado por praticamente todo o ano de 2025 e sobre o valor total pago, Flávio Bolsonaro preferiu não responder. Sua assessoria afirmou que a produtora do filme deveria ser consultada sobre a possível existência de outros pagamentos. “Isso não é com a gente.” Mesmo depois de ser informada de que a nova parcela revelava uma declaração pública falsa do candidato, a assessora manteve o entendimento de que Flávio não precisava dar explicações.

Não foi a primeira vez que o senador apresentou uma versão considerada incompatível com os registros do caso Dark Horse. Em março passado, quando se tornou público que seu número de telefone estava na agenda de Vorcaro, Flávio disse à colunista Mônica Bergamo que jamais havia mantido contato com o dono do Master. Ao ser questionado pelo repórter Thalys Alcântara sobre o motivo de o filme ter sido financiado por Vorcaro, respondeu: “É mentira, de onde você tirou isso?”

Na mesma entrevista, ele declarou que o Havengate era fiscalizado pela SEC, órgão americano equivalente à Comissão de Valores Mobiliários no Brasil. A informação não é verdadeira. Flávio afirmou ainda que o fundo havia sido encerrado assim que surgiram as primeiras suspeitas sobre os negócios de Vorcaro. Registros fazendários do Texas, entretanto, mostram que o fundo permanece ativo até hoje.

A polícia investiga agora o caminho percorrido pelo dinheiro. Os recursos não eram enviados diretamente pelas empresas de Vorcaro e também não entravam na conta da produtora do filme, a Go Up Entertainment llc, nos Estados Unidos, como ocorreria no fluxo habitual. Em vez disso, o banqueiro fazia as remessas por intermédio do doleiro Antonio Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”. Ele é dono da Entre Investimentos e Participações e já se apresentou publicamente como especialista em “câmbio de saída, que é uma coisa mais arriscada”. O dinheiro seguia para o Havengate, fundo sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado especializado em imigração, sem atuação na área cinematográfica e amigo de Eduardo Bolsonaro, que também mora no estado americano.

Como o Havengate era responsável por enviar os valores à produtora, as apurações buscam esclarecer se todo o dinheiro foi, de fato, destinado à produção do filme. Os investigadores apuram se parte dos recursos permaneceu no fundo ou terminou nas mãos de Eduardo Bolsonaro, que passou a morar nos Estados Unidos em fevereiro do ano passado. Por coincidência, esse foi o mesmo mês e ano em que Vorcaro começou a enviar ao Havengate as parcelas destinadas ao filme. A primeira remessa, no valor de 2 milhões de dólares, ocorreu em 13 de fevereiro de 2025.

Até o momento, não existe evidência de que uma parte dos milhões enviados por Vorcaro tenha sido desviada para bancar a permanência de Eduardo nos Estados Unidos. Ainda assim, os investigadores querem esclarecer melhor qual era a função desempenhada por ele na gestão dos recursos. Depois que o áudio de Flávio foi divulgado em maio passado, Eduardo diminuiu sua participação na produção. Em entrevista, afirmou apenas que havia investido 50 mil dólares do próprio bolso no filme para assegurar a contratação do diretor, mas que o dinheiro havia sido devolvido posteriormente.

Na documentação americana da obra, porém, Eduardo aparece em alguns momentos como “produtor executivo” e, em outros, como “financiador”. A investigação busca determinar até onde ia seu controle sobre os valores mantidos na conta do Havengate. A Go Up foi procurada para responder à questão, mas não apresentou uma resposta objetiva. Na prática, o caso envolve duas caixas-pretas: a do filme e a do fundo.

Texto produzido pela Redação Pauta Viva com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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