ABRANTES — Há quase 40 anos, Mariza Bonfim Ribeiro prepara um caruru em homenagem a São Cosme e Damião no dia 26 de setembro. A professora baiana começou a tradição em 1987, depois de ganhar uma imagem dos santos e ter um pedido atendido durante a gravidez.
“Ganhei a imagem de uma amiga, que disse que eu era muito alegre, tinha tudo a ver com Cosme e Damião. Eu estava grávida, fiz um pedido e ele foi atendido em três dias”, contou Mariza.
O primeiro caruru foi oferecido a amigos. Com o passar dos anos, a refeição também passou a ser destinada a pessoas em situação de vulnerabilidade social. A festa começou na sala da casa da professora, em Abrantes, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), e depois foi transferida para o salão de festas do condomínio, devido ao crescimento do encontro.
Fé e solidariedade
A celebração reúne convidados e doações. Neste ano, Mariza informou que vai distribuir quentinhas pela manhã e se encontrar com os participantes no almoço. Para participar, é preciso levar alimentos não perecíveis, como arroz e feijão. Os itens arrecadados são encaminhados a lares de idosos, centros espíritas e outras organizações sem fins lucrativos.
Na Bahia, o caruru de São Cosme e Damião é reconhecido como patrimônio imaterial do estado. A Igreja Católica celebra os santos gêmeos em 26 de setembro. Nas religiões de matriz africana, os Ibejis, orixás gêmeos associados às crianças, são celebrados em 27 de setembro. A relação entre as celebrações é atribuída ao sincretismo religioso.
A festa de Mariza também guarda episódios marcantes. Em um ano em que decidiu preparar um caruru menor, a casa foi invadida e vários eletrodomésticos foram furtados. “Brinque com Cosme e Damião”, disse ela ao recordar o caso.
A devoção ainda está ligada à memória do filho mais velho, o produtor musical Henrique Bonfim, que morreu em um acidente de avião em 2021 junto com a cantora Marília Mendonça. Para Mariza, o caruru passou a representar acolhimento depois da morte do filho.
O caruru é preparado com ingredientes como quiabo, camarão seco e azeite de dendê. Pela tradição, a comida é servida primeiro às crianças, em um costume conhecido como caruru de sete meninos. Depois, os adultos são convidados a comer. Quem encontrar um quiabo inteiro no prato deve oferecer um caruru completo no ano seguinte.


