SALVADOR — A Polícia Civil e o Ministério Público da Bahia investigam um suposto esquema de desvio de armamentos e munições do Exército para abastecer organizações criminosas. O cabo Deivison dos Santos Ferreira, lotado no Sexto Batalhão de Polícia do Exército, em Salvador, é apontado como negociador de munições, granadas e armas com integrantes do tráfico de drogas.
As suspeitas surgiram durante uma apuração sobre o narcotráfico na capital baiana. Conversas encontradas em celulares apreendidos em uma operação realizada em abril indicam que o militar oferecia materiais de uso restrito a criminosos. Os aparelhos foram localizados em uma casa usada para armazenar e preparar drogas em Itapuã, bairro de Salvador.
Conversas e identificação do militar
O telefone que levou os investigadores ao cabo pertencia a Gabriel Reis Oliveira, apontado pela polícia como responsável pela compra e revenda de armas e drogas para diferentes facções. Conforme a investigação, ele negociava diretamente com Deivison o material supostamente desviado.
Embora usasse apenas um emoji para se identificar nas conversas, o militar teria enviado dados pessoais, incluindo CPF e chave Pix, para receber pagamentos. Essas informações foram usadas para confirmar a identidade dele.
A Polícia Civil afirma que o cabo teria vendido cerca de mil munições de fuzil dos calibres 5.56 e 7.62 para esse grupo criminoso. Também foram identificadas conversas sobre negociações de granadas, mas a quantidade supostamente desviada ainda não foi determinada.
Prisões e linha de investigação
Nesta semana, uma operação que reuniu 250 agentes prendeu 33 pessoas suspeitas de integrar a organização criminosa. Foram 27 prisões em Salvador e na região metropolitana, duas no interior da Bahia, três em Sergipe e uma em São Paulo.
Deivison estava entre os alvos de um mandado de prisão, mas já havia sido preso no mês anterior por decisão da Justiça Militar. Em nota, o Comando da Sexta Região Militar informou que ele está em prisão preventiva em uma investigação sobre o desaparecimento de coletes balísticos. O Exército declarou que o cabo permanecerá custodiado em uma unidade militar, à disposição da Justiça.
A principal hipótese é que munições e granadas tenham sido retiradas durante exercícios militares. O material restante dos treinamentos deveria voltar ao paiol da unidade, mas parte dele teria saído do controle oficial. Os investigadores suspeitam que registros tenham sido alterados para esconder diferenças no estoque.
Mensagens analisadas fazem referência a treinamentos em Paulo Afonso, no interior da Bahia, e indicam que o militar pretendia obter mais material depois da atividade. A apuração também encontrou negociações de pistolas e fuzis, embora ainda não exista confirmação de que essas armas tenham sido desviadas do Exército.
A Polícia Civil tenta identificar outras pessoas que possam ter participado do esquema. O cabo menciona, em diferentes conversas, possíveis envolvidos no fornecimento de granadas e munições. Para a corporação, ainda é prematuro afirmar que outros militares integravam a organização criminosa, mas a hipótese continua sendo investigada.
Os advogados de Deivison afirmaram que ele nega todas as acusações e que os fatos serão esclarecidos no momento oportuno. A defesa também informou que trabalha para revogar as prisões.



