A obra de Roberto Schwarz propõe que a literatura brasileira seja lida a partir das relações sociais que marcaram a formação do país. No centro dessa interpretação está a combinação entre escravismo, clientelismo e ideário liberal-burguês, entendida como uma estrutura capaz de orientar tanto a vida social quanto as formas literárias.
Aos 88 anos, Schwarz relança seu primeiro livro de ensaios, “A Sereia e o Desconfiado”, publicado em 1965. A obra já apresenta uma crítica literária baseada na leitura minuciosa dos textos e na análise das posições ideológicas envolvidas em sua produção.
A literatura diante da matéria brasileira
O conceito de “matéria brasileira” reúne o sistema de relações sociais produzido pela história do país e os pontos de vista derivados dele. Para Schwarz, essas relações aparecem na linguagem, nos temas, nas tradições culturais e nas situações elaboradas pelos escritores.
Essa perspectiva ganhou forma decisiva em “As Ideias Fora do Lugar”, ensaio de 1972 incluído em “Ao Vencedor as Batatas”. O estudo examina o deslocamento de ideias modernas para uma sociedade escravista e regida pelo favor. A questão, segundo Schwarz, não está apenas na importação de modelos estrangeiros, mas na estrutura social desigual que lhes dá um funcionamento específico.
Em “Nacional por Subtração”, de 1986, o crítico retoma esse problema e relaciona o sentimento de inautenticidade cultural à segregação da maioria da população. A literatura, nesse quadro, precisa lidar simultaneamente com formas modernas e relações sociais que as tensionam.
A análise de “Senhora”, de José de Alencar, mostra como o romance brasileiro enfrentou essa dificuldade. A forma romântica e realista, transplantada para o ambiente local, não se ajustava integralmente às relações efetivas representadas nas margens da narrativa. Para Schwarz, essa inadequação não é apenas um defeito: ela integra os materiais com que a literatura brasileira trabalha.
Machado de Assis e a crítica da dominação
Os estudos sobre Machado de Assis ocupam o núcleo da obra de Schwarz. Em “Um Mestre na Periferia do Capitalismo”, que reúne estudos publicados ao longo da década de 1980 e lançado em 1990, a análise de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” identifica na volubilidade do narrador um princípio formal ligado à prática social brasileira.
A solução machadiana permite incorporar referências à civilização moderna sob o arbítrio do defunto-autor. O resultado é uma crítica à estrutura de dominação da sociedade brasileira e à ordem capitalista-burguesa que a determina.
Esse percurso também leva Schwarz a observar a formação do romance brasileiro como um campo de problemas, e não apenas como uma sequência de soluções bem-sucedidas. Obras de autores como Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Glauber Rocha, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto poderiam ser estudadas a partir das diferentes maneiras de formalizar essa matéria.
A proposta não se limita à identificação de um fundo social comum. O objetivo seria compreender as soluções artísticas particulares e seus sentidos estéticos, ideológicos e políticos em relação ao mundo contemporâneo.
Uma crítica que retorna aos próprios problemas
A escrita de Schwarz expõe seus pressupostos teóricos e políticos e comenta, muitas vezes, o próprio desenvolvimento das análises. Seus livros retomam temas centrais, acrescentam aspectos e relacionam objetos distintos. Em “Seja como For”, de 2019, ensaios e entrevistas cobrem um período de 1976 a 2019, ampliando as possibilidades de explicação e autocomentário.
A trajetória inclui ainda “Cultura e Política, 1964-69”, escrito no exílio francês e reunido em “O Pai de Família”, de 1978, além de estudos sobre obras de Chico Buarque, Paulo Lins, Caetano Veloso e outros autores. Em cada caso, a literatura aparece vinculada às relações sociais e aos pontos de vista que estruturam sua forma.
No discurso ao receber o título de professor emérito da Unicamp, em 2022, Schwarz defendeu uma crítica independente, voltada às obras e não aos autores. A figuração literária, afirmou, constitui uma maneira própria de pensar e investigar o mundo.
Revisitar sua obra, portanto, significa retomar questões ainda abertas sobre a crítica e a criação literária. A contribuição de Schwarz está tanto nas interpretações que formulou quanto no programa de investigação que deixou para compreender como a literatura brasileira transforma, em formas particulares, os conflitos da sociedade.



