O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mudou de versão várias vezes ao falar sobre sua relação com Daniel Vorcaro, banqueiro investigado por fraude financeira e ex-dono do Banco Master. As declarações passaram de uma negativa de contato para a admissão de negociações sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Em 16 de março, depois que o número de Flávio apareceu na agenda de Vorcaro, o senador afirmou que nunca havia tido contato com o banqueiro. Dois meses depois, após a divulgação de mensagens e áudios, disse que conhecia Vorcaro desde dezembro de 2024 e que havia procurado recursos para a produção do filme.
Em 13 de maio, Flávio primeiro negou que Vorcaro tivesse financiado a obra. Horas mais tarde, reconheceu as tratativas e afirmou que o contato havia sido retomado por causa de parcelas atrasadas do patrocínio. A negociação previa US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, dos quais aproximadamente R$ 61 milhões foram repassados.
“Eu menti. Eu podia descumprir uma cláusula contratual? Isso gera multa, isso gera exposição dos investidores”, disse Flávio no dia seguinte, ao ser questionado sobre a negativa anterior.
Encontros e mensagens
Registros divulgados a partir de maio apontam que Flávio participou diretamente das tratativas do filme. Em 8 de setembro de 2025, ele cobrou parcelas atrasadas e relatou preocupação com a situação financeira da produção. Depois, os dois fizeram uma ligação de WhatsApp de dois minutos e 38 segundos.
Também há indicação de uma reunião presencial em agosto. Em setembro, integrantes da produção disseram a Vorcaro que Flávio queria mostrar material já gravado. Em outubro, o senador convidou o banqueiro para um jantar com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.
Em 7 de novembro, dez dias antes da prisão de Vorcaro, Flávio enviou um vídeo da produção e escreveu: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc!”.
Um relatório da Polícia Federal descreveu Flávio como interlocutor direto de Vorcaro nas tratativas financeiras de Dark Horse. A investigação busca esclarecer a origem dos recursos, o papel das empresas usadas nos repasses, o destino do dinheiro enviado ao exterior e a atuação de cada envolvido. Flávio é investigado e nega irregularidades.
Avião e prestação de contas
Em julho, Flávio afirmou que sua única relação com Vorcaro era ligada ao filme e negou ter viajado em avião do banqueiro. Porém, em 19 de janeiro de 2025, ele, a mulher, Fernanda, e as duas filhas viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília em um Legacy 650 operado pela Prime You, empresa que tinha Vorcaro entre os sócios naquele período.
A aeronave tinha propriedade compartilhada. Uma das cotas estava ligada à Prime You, e outra pertencia ao advogado Willer Tomaz, que afirmou ter convidado Flávio, solicitado o voo e pago integralmente a viagem. O senador não negou o deslocamento, mas disse que desconhecia a participação da empresa ligada a Vorcaro.
Flávio também prometeu, em 19 de maio, que a produtora apresentaria em até 30 dias uma prestação de contas dos recursos usados no filme. O prazo terminou em 18 de junho sem a divulgação do conjunto de documentos. Depois, ele passou a dizer que a promessa havia sido cumprida com a entrega de documentos à Polícia Civil de São Paulo.
Quatro dias antes da primeira prisão de Vorcaro, entre 13 e 16 de novembro de 2025, Flávio tentou falar com o banqueiro diariamente. Em uma das mensagens, pediu ajuda e afirmou que estaria ao lado dele. Vorcaro foi preso no dia seguinte, no Aeroporto de Guarulhos. As mensagens não indicam qual assunto Flávio pretendia tratar nem mostram que ele soubesse previamente da operação policial.



